Capa: Cultivo de Lúpulo em produção

Você já imaginou que a agricultura está embutida em uma garrafa de cerveja? Pois tudo começa no campo! Campo de cevada, de milho, de arroz, de trigo, de lúpulo… Para uma garrafa(600ml) só se utiliza algo em torno de 80g de grãos. Mas o mundo consome cerca de 200 bilhões de litros de cerveja por ano. A matéria-prima necessária para dar conta de toda essa demanda ocupa 35 milhões de hectares de lavouras. É uma área do tamanho da Alemanha, destinada à produção de cerveja.

Ultimamente, o setor que mais cresce no ramo da cervejaria é o das cervejas especiais, destacando-se o produto artesanal. Embora não haja ainda legislação regulamentando a atividade, no Brasil já tem gente fabricando cerveja artesanal. Como a Cerveja da Serra da Mantiqueira, que é produzida numa pequena propriedade do município de Gonçalves-MG. André Waack é o dono da propriedade. Engenheiro de som e músico de uma banda de rock, André deixou a cidade de São Paulo para morar na Serra. Os amigos imaginavam que ele montaria um estúdio de gravação no local, mas se surpreenderam quando conheceram a microcervejaria e a pousada, montada com o propósito do hóspede fabricar aqui a própria cerveja.

O lúpulo é considerado um dos ingredientes mais importantes da fabricação da cerveja, mas de onde são os ingredientes da nossa cerveja?

André costuma comprar maltes importados da Bélgica e da Alemanha. Produz cinco tipos de cerveja, entre claras e escuras. E, agora que dominou a técnica, quer muito incorporar um sabor serrano. Além da água, que é extraordinária, quer explorar o que, na Europa, chamam de “terroir”, coisas que são próprias e características de uma região específica. Ele exemplifica: “O pinhão, a jabuticaba, a japoca – uma frutinha que se assemelha ao fissális”.

Mal sabe o André que um ingrediente fundamental da cerveja, o Lúpulo (Humulus lupulus), é objeto de um experimento inédito no Brasil, a 50Km quilômetros do sítio dele, em São Bento de Sapucaí-SP próximo a Campos do Jordão. A cidade fica a 1.700 metros de altura, é cheia de bosques de Araucárias, Pirambeiras e registra em média, 40 geadas por ano. Produzir em uma região com essas características pode parecer utopia para muita gente. Mas foi exatamente este o local escolhido pelo agrônomo Rodrigo Veraldi para viver e para cultivar sua renda: “Viabilizamos a utopia de se poder viver numa pequena propriedade nesta região. A gente conseguiu conciliar o cultivo de diversas espécies, produzindo em torno de 30 toneladas de frutas por ano, visando a sustentabilidade”.

 

Rodrigo já trabalhou bastante com café e batata, mas é apaixonado mesmo por botânica. É daquelas pessoas que se referem às plantas pelo nome científico. No terreno que recebeu de herança, Rodrigo montou uma coleção com centenas de plantas: tem um bosque de Castanheira Portuguesa, uma alameda de Álamos, um Pinheiro do Hemisfério Norte juntamente com uma Araucária.

Comercialmente, ele cultiva 15 variedades: planta uvas Malbec e Shiraz, para produção de vinho artesanal; tem Oliveiras, para a fabricação de azeite; um jardim clonal de frutas vermelhas; além de avelãs, mirtilo, framboesa, morangos sem agrotóxicos e… o lúpulo! Uma planta que não existia no país.

É o lúpulo utilizado na produção da Baden Baden 15 anos, de propriedade da Brasil Kirin e investidora no projeto. O lúpulo do Brasil ainda não possui nome, não possui escala para suprir a demanda interna, mesmo que parcialmente, mas está há mais de 10 anos sendo desenvolvido e caminhando para a terceira safra.

As folhas são ásperas, no formato de palma. Elas sobem se enrolando num fio de nylon, no sentido horário. No espaçamento de 1,20m entre plantas e 3,5m entre linhas, são 2500 pés de lúpulo por hectare.

O Lúpulo e a Cannabis (a vulgar maconha) , são plantas da mesma família, a cannabaceae. As duas espécies são drogas(?)
Crise na produção do Lúpulo obriga algumas cervejarias a produzirem cerveja a base de cannabis
Crise na produção do Lúpulo obriga algumas cervejarias a produzirem cerveja a base de cannabis

No Brasil,  atualmente importador de quatro mil toneladas de lúpulo ao ano, os custos com a aquisição do lúpulo superam R$ 200 milhões, já foram realizadas algumas tentativas de produção própria de lúpulo com variedades da Europa, de onde a planta se origina. Todas essas tentativas foram sem sucesso. O cultivo da Serra da Mantiqueira deu certo graças a um lance do acaso, um acontecimento botânico espontâneo que originou o primeiro pé de lúpulo, o sobrevivente de uma experiência frustrada de Rodrigo, que fala orgulhoso: “Esse pé tem história: é o marco do cultivo de lúpulo no Brasil”.

Rodrigo Veraldi e seu cultivo de lúpulo

O estado de Santa Catarina parece dar passos ainda mais largos em direção a produção comercializável de lúpulo no Brasil. A empresa Biotec do Brasil apresentou para o secretário de Estado da Agricultura e da Pesca do estado, um projeto de produção de lúpuloA ideia é combinar a produção de maçã e de erva mate, já consolidada na região serrana, com o lúpulo. O estado seria o primeiro produtor nacional da planta, bastante utilizada nas indústrias cervejeira, farmacêutica e de biocombustível.

“Atualmente o Brasil é o terceiro maior importador de lúpulo do mundo e a produção estadual poderia atender ao mercado interno. O investimento médio para implantação de um hectare da planta é de R$ 20 mil e o retorno financeiro pode chegar a R$ 69,9 mil para as variedades utilizadas na indústria farmacêutica e de biocombustível”, destacou a matéria. Um dos sócios da Biotec do Brasil, Guilhermo Zapelini diz que a intenção é de construir uma fazenda modelo em São Joaquim para produzir as cinco variedades de lúpulo, que já estão sendo desenvolvidas na Embrapa.

Vale lembrar, portanto que a fazenda do Rodrigo Veraldi é no momento a pioneira na produção de lúpulo brasileiro, no Brasil. Mas, sem dúvidas o fomento que a Biotec quer implantar em Santa Catarina irá gerar resultados no mínimo interessantes.

Cultivo pioneiro de lúpulo no Brasil, O Eng.agrônomo Rodrigo Veraldi comemora o sucesso
Cultivo pioneiro de lúpulo no Brasil, O Eng.agrônomo Rodrigo Veraldi comemora o sucesso nas colheitas
Foto: Rodrigo Veraldi
Humulus lupulus no Brasil            Foto: Rodrigo Veraldi

Rodrigo produz anualmente 2.000 quilos de lúpulo em São Bento do Sapucaí. A colheita acontece a partir de março e os cones são retirados manualmente. O investimento até o momento foi de R$ 120 mil. “Ainda não temos lucro porque tudo foi feito em caráter de teste”, diz o agrônomo.

A expectativa é que a cultivar originária da parceria com a Brasil Kirin esteja economicamente viável em cinco anos. Com o apoio à produção do insumo e o incentivo ao projeto experimental, a Brasil Kirin tem o intuito de promover a sustentabilidade do negócio, ampliar a democratização das cervejas especiais no país e ampliar a cadeia produtiva, valorizando o plantio do lúpulo nacional por pequeno e médios produtores rurais.

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Fonte: Tripbeer
Globo rural
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Bacharel em Engenharia Florestal e mestrando em Agronomia - Produção Vegetal pela Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul, campus de Aquidauana (UEMS/UUAq). Entusiasmado pelo amor à natureza, o floresteiro costuma atuar em diversas atividades que envolvem o meio ambiente e os recursos naturais, além de participar como colaborador intelectual do AquidauanaMais. Acredita que a interferência de uma "formiga na selva de pedras", embora pequena, pode ser positiva ao ponto de contribuir no desenvolvimento sustentável. Se for esse o caminho, é por ele que vamos.