Plantas Alimentícias Não Convencionais: vegetais geralmente subutilizados como alimento ou simplesmente tratado como "mato", dispensando o seu uso na culinária.

Tudo é mato até que se prove o contrário, ou que se prove e seja gostoso. Primeiro, foram as alfaces, a couve, a rúcula, enfim, tudo o que se encontra nas feiras. Agora, as plantas alimentícias não convencionais, as PANCs, fazem a cabeça dos chefs e consumidores, levando espécies como beldroega e sálvia-peixinho para os menus, dos mais requintados aos mais simples. O Brasil possui uma biodiversidade vegetal notável, o que torna a região propícia à exploração sustentável das saudosas PANCs, estima-se que o país tenha em torno de dez mil plantas com potencial uso alimentício.

Estima-se que o número de plantas consumidas pelo homem caiu de 10 mil para 170 nos últimos cem anos. Por exemplo, há 80 anos existiam mais de 490 diferentes tipos de alface pelo mundo. Hoje temos apenas 36. O cenário é alarmante. É quase uma obrigação trazer novas espécies a fim de diversificar e fortalecer o meio ambiente e o produtor, além de enriquecer a alimentação humana de forma saudável e consciente. Nesse contexto, as Plantas Alimentícias Não Convencionais, chamadas carinhosamente de PANCs, destacam-se pela riqueza de sabores, texturas e nutrientes que oferecem.

Muitas das PANC’s são consideradas vegetações espontâneas, ou seja, plantas que crescem livremente e se proliferam nos quintais, e temos a ousadia de chamá-las de daninhas. Também são PANCs as plantas subutilizadas como alimento, como nas bananas, das quais não utilizamos os corações ou umbigo, ou no chuchu, que dispensamos as saborosas raízes. Por muitas vezes perdemos a oportunidade de saborear um novo alimento simplesmente pelo desconhecimento ou pelo preconceito ao fugir do padrão.

Bolinho de Arroz com Ora-pro-nobis, Aroeira e Hibisco vermelho

Muitas pessoas começaram a se interessar por PANCs quando conheceram o biólogo Valdely Ferreira Kinupp, autor, junto com Harri Lorenzi, do livro “Plantas Alimentícias Não Convencionais no Brasil” (Ed. Plantarum), lançado em 2014, em que catalogam 351 espécies dessas plantas e, além disso, indicam receitas e expõem ilustrações dessa riqueza. Resultado de uma pesquisa que durou mais de dez anos, o livro, fica a dica, é citado pelos chefs como a publicação “tem-que-ter” para quem busca saber mais sobre o assunto.

Dentre as hortaliças inclusas no grupo das PANCs, algumas poucas fazem parte da culinária regional. Entre estas destaca-se o jambu (Acmella oleracea L. – Asteraceae) componente essencial do tacacá, prato típico da culinária amazônica. Outra planta típica da culinária amazônica é o cubiu (Solanum sessiliflorum Dun. – Solanaceae), a qual produz frutos que podem ser usados na tradicional caldeirada, assim como para a elaboração de sucos, sorvetes, doces e geléias. Também muito cultivada e vendida na região Norte é a chicória-de-caboclo (Eryngium foetidum L.- Apiaceae), um tempero essencial de alguns pratos e pode ser utilizada como ingrediente principal no tempurá.

Merece destaque o ora-pro-nobis ou carne-de-pobre (Pereskia spp. – Cactaceae) verdura típica da culinária mineira. Este é um dos únicos gêneros de cactus que apresentam folhas verdadeiras. Inclusive, em 1997 foi criado o Festival do Ora-Pro-Nóbis no município de Sabará, Minas Gerais (MG).

Dentre as hortaliças nativas cabe destacar também as taiobas, taiás, mangarás e mangaritos (Xanthosoma spp. – Araceae). Algumas espécies deste gênero, tais como a taioba (X. sagittifolium L.) além das folhas cordiformes ricas em vitamina A e recomendadas para quem sofre com prisão de ventre, produz grande quantidade tubérculos amiláceos saborosos consumidos cozidos e fritos, ensopados ou transformados em pães e bolos.

“As PANCs não são um grupo de plantas diverso e atraente. Há espécies nativas, exóticas, cultivadas, espontâneas e até algumas que podem passar despercebidas. PANCs também podem produzir folhas, frutos, vagens e grãos. São plantas que não encontramos facilmente nos mercados, mas que em determinados lugares podem ser convencionais”

-Neide Rigo, chef do restaurante Tuju, na vila Madalena em São Paulo-SP.

“Eu gostaria de ter só estas plantas no restaurante” comentou a chef de comida crua, que, nesta semana, recebeu em seu restaurante coentro-da-Mata-Atlântica, folha de acerola, jambu, bilimbi, flor-de-ipê, vinagreira, curry, peixinho e ora-pro-nóbis.

“Plantamos mais de 350 variedades de PANCs. Temos uma estufa, canteiros e carrinhos para cultivá-las. Fora a nossa produção, contamos ainda com mais de 20 fornecedores. E sempre que posso, eu saio pela cidade à procura delas”

-Ivan, que lista beldroega, pelo sabor; ora-pró-nobis, pela textura carnuda; e serralha, pelo amargor, como as preferidas.

“Usar estes ingredientes é bacana por vários aspectos. Primeiro, pelo gustativo. A maioria dessas plantas têm gostos incríveis, variam bastante o paladar. E também pelo fator nutritivo. Elas crescem em abundância. Só não são mais usadas por desconhecimento. Sem falar que, ao usá-las, contribuímos para um tipo de agricultura menos nociva”

-Helena Rizzo, do restaurante Maní, em São Paulo-SP.

Atualmente vivemos uma época de busca por produtos saudáveis, de origens conhecidas e que contribuam para conservação ambiental. As PANCs apresentam-se promissoras no extrativismo sustentável, combate a fome e na diversificação saudável da alimentação humana. Contudo, além dos manejos sustentáveis, cultivos, pesquisas e marketing das espécies promissoras para uso alimentício, há naturalmente, a necessidade de preços competitivos, de controle de qualidade dos produtos e de produção em maior escala, criando assim as demandas e os mercados.

 

Conheça algumas PANCs

 

Acesse o guia prático de PANCs aqui

Comece a incluir as PANCs em sua alimentação. Essas plantas podem ser utilizadas em várias receitas e enriquecem sua refeição.

Não se esqueça depois de fazer a compostagem dos restos de alimentos para contribuir com o meio ambiente.

 


Fonte:
KINUPP, V. F. Plantas Alimentícias Não-Convencionais (PANCs): uma Riqueza Negligenciada. Anais da 61ª Reunião Anual da SBPC – Manaus, AM. 2009.  ; eCycle e Globo

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