O polêmico uso desta planta medicinal é atualmente um dos assuntos mais discutidos em redes sociais e espaços públicos. A planta ainda considerada proibida em muitos países é apontada como um remédio eficaz e acessível à diversas enfermidades, o que justifica seu uso milenar para estas finalidades. Além disso, a planta pode ainda ser usada para outros fins, como para diminuir os efeitos da quimioterapia e da radioterapia em pacientes com câncer, por exemplo.

Alguns países passaram a regulamentar o uso desta espécie de forma a permitir que seja produzida, beneficiada e estudada para fins de saúde pública e, em alguns casos, para uso recreativo. A discussão tomou maiores proporções quando os números favoreceram a descriminalização desta espécie, já que os cofres públicos faturam com o impostos sobre a venda, a violência se reduz com a regulamentação da venda em farmácias e coffee shops e, outros números indicam que a popularização da Cannabis sativa L. como remédio reflete a sua eficácia no tratamento de pacientes que não reagem bem à outros medicamentes, recorrendo à medicina tradicional fitoterápica, utilizando de extratos vegetais, vaporizando partes da planta ou, simplesmente consumindo-a como alimento, usando a semente, folhas ou flores.

Em resposta à pressão pública para a aprovação do uso medicinal da maconha, o órgão responsável pelo controle de medicamentos dos Estados Unidos (the Office of National Drug Control Policy, Washington,DC) patrocinou um estudo realizado pelo Institute of Medicine, que teve como autores o Dr. Stanley J. Watson, o Dr. John A. Benson e a Dra. Janet E. Joy.

Esta pesquisa objetivou avaliar as evidências científicas dos benefícios e dos riscos do uso da maconha na medicina. Baseou-se em conhecimentos científicos e populares e foi validado por especialistas no assunto. O estudo foi publicado na revista Archives of General Psychiatry de junho de 2000.

A principal finalidade deste estudo foi determinar o que é verdadeiro e o que é falso a respeito do efeito terapêutico da maconha. Ele consiste em uma revisão sobre os mecanismos e locais de ação da droga, bem como, a eficácia e falhas de seu uso medicinal. Inclui também uma análise dos efeitos crônicos e agudos da maconha, sendo comparados os seus efeitos adversos com os de outras drogas já padronizadas.

 

O conhecimento a respeito da neurobiologia da maconha vem mudando dramaticamente na última década. Foram descobertos dois tipos de receptores (estruturas orgânicas que se ligam aos componentes químicos da maconha e permitem sua ação dentro das células), que receberam o nome de CB1 e CB2, estes se localizam principalmente no cérebro e nas células do sistema imune.

Dentro do cérebro, estes receptores estão concentrados no sistema límbico, no córtex cerebral, no sistema motor e no hipocampo. Essas localizações explicam, em parte, os sintomas provocados pela maconha, como as alterações do estado mental, as mudanças de humor e as alterações da coordenação motora.

Seus efeitos sobre o sistema imune ainda não são bem conhecidos.

O papel da maconha na dor

Evidências de pesquisas em animais e em homens indicam que a maconha pode produzir um efeito analgésico importante. Porém, mais estudos devem ser feitos para estabelecer a magnitude e a duração deste efeito, nas diversas condições clínicas. Os pacientes que poderiam ser beneficiados com o uso dessa droga seriam aqueles em uso de quimioterapia, em pós-operatório, com trauma raquimedular (lesão da coluna vertebral com acometimento da medula), com neuropatia periférica, em fase pós-infarto cerebral, com AIDS, ou com qualquer outra condição clínica associada a um quadro importante de dor crônica.

Quimioterapia induzindo náuseas e vômitos

Muitos oncologistas e pacientes defendem o uso da maconha, ou do THC (seu principal componente já estudado) como agente antiemético. Mas quando comparada com outros agentes, a maconha tem um efeito menor do que as drogas já existentes. Contudo, seus efeitos podem ser aumentados quando associados com outros antieméticos. Dessa maneira, o uso da cannabis na quimioterapia pode ser eficiente em pacientes com náuseas e vômitos não controlados com outros medicamentos.

Desnutrição e estímulo do apetite

Os estudos sobre os efeitos da maconha sugerem que esta droga pode ser importante no tratamento da desnutrição e da perda do apetite em pacientes com AIDS ou câncer. Mas outros medicamentos são mais efetivos do que a maconha, portanto, os autores recomendam pesquisas mais aprofundadas para avaliar a ação da maconha nesses pacientes.

Espasmo Muscular

Como já foi dito anteriormente, a maconha afeta o movimento, e estudos tem demonstrado que ela pode ajudar no controle do espasmo muscular (encontrado na esclerose múltipla ou no traumatismo raquimedular).

Mas as pesquisas que avaliaram essa capacidade da maconha devem ser analisadas com cuidado, uma vez que, outros sintomas associados a estas doenças, como a ansiedade, podem aumentar os espasmos, e nesse caso, a maconha poderia ter sua ação diminuindo a ansiedade e não controlando o espasmo propriamente dito. Por isso, os autores acreditam que mais estudos devem ser realizados para se confirmar esse efeito da maconha.

Movimentos desordenados

Estudos em animais demonstram que o uso da maconha pode estimular os movimentos em doses baixas e pode inibí-los em doses altas. Esta característica pode ser importante para o desenvolvimento de tratamentos para as desordens motoras na doença de Parkinson. Os autores acreditam que novos estudos devem ser feitos para avaliar a quantidade exata da droga que pode ser eficiente no tratamento dessa condição.

Epilepsia

O principal objetivo do tratamento da epilepsia é impedir completamente as crises. Os estudos a esse respeito ainda estão se iniciando, e muitas vezes as crises não foram inibidas com o uso da maconha, portanto, os autores acreditam que pesquisas com pessoas ainda não devem ser indicadas.

Glaucoma

Apesar do glaucoma ser uma das indicações mais citadas para o uso da maconha, os dados existentes não suportam esta indicação. A pressão alta intra-ocular é um dos fatores de risco para o desenvolvimento do glaucoma e a maconha poderia agir diminuindo esta pressão. Mas esse efeito é de curta duração e só é conseguido com altas doses da droga. Como as altas doses provocam muitos efeitos indesejáveis e as medicações já existentes são bastante efetivas e com efeitos colaterais mínimos, os autores acreditam que o uso da cannabis nessa condição ainda não está indicado.

Efeitos adversos

Os efeitos adversos da cannabis podem ser divididos em duas categorias: os efeitos do hábito de fumar crônico e os efeitos do THC. O fumo crônico da maconha provoca alterações das células do trato respiratório, e aumentam a incidência de câncer de pulmão entre os usuários. Os efeitos associados ao longo tempo de exposição ao THC são a dependência dos efeitos psicoativos e a síndrome de abstinência com a cessação do uso. Os sintomas da síndrome de abstinência incluem agitação, insônia, irritabilidade, náusea e cãibras.

Alguns autores sugerem que a maconha é uma porta de entrada para outras drogas ilícitas. Mas ainda não existem estudos científicos que comprovem essa hipótese. E outras drogas como o tabaco e o álcool, na verdade, são as primeiras drogas a serem usadas antes da maconha. além disso, a maconha já é apontada como promissora no tratamento de pacientes viciados em drogas pesadas como a cocaína e a heroína.

Enquanto isso no Brasil

Pesquisas em universidades como Unifesp, berço da Maconhabrás, e UFRJ já estudam os extratos da maconha, apesar da dificuldade de conseguir a matéria-prima ilegal no país.

O Fio-Cannabis, no entanto, vai além e pretende desenvolver um medicamento nacional. Para isso, uma parceria com o projeto da UFRJ, que analisa a composição dos extratos de maconha importados ou produzidos clandestinamente no Brasil, servirá de banco de informações sobre combinações já usadas por pacientes. Os primeiros exames clínicos, feitos pela parceria, vão focar pacientes de epilepsia.

Para ativistas e pacientes destes medicamentos, a extração caseira de canabidiol (CBD) ou de tetrahidrocanabinol (THC) é, de fato, um caminho a se seguir no tratamento de doenças como epilepsia e esclerose múltipla. Nos últimos meses, três famílias, duas do Rio de Janeiro e uma de São Paulo, obtiveram habeas corpus preventivos para plantar maconha em casa sem que corram o risco de serem presas. O próximo passo, para ativistas, é a conquista de decisões que permitam o plantio coletivo por famílias de pacientes. A associação Abrace, que cultiva maconha e distribui entre associados, já entrou com uma ação pedindo que a Justiça obrigue a União a reconhecer a legalidade de sua atividade.

No Brasil, o Conselho Federal de Medicina se posiciona e apresenta o uso medicinal da Cannabis

CONCLUSÃO

Resumindo, os dados indicam um efeito terapêutico modesto, particularmente, no controle da dor, alívio de náuseas e vômitos, e estimulação do apetite. Seus efeitos foram melhores estabelecidos para o THC e Canabidiol. A maconha possui vários outros componentes que não tem seus efeitos estudados, e que podem trazer muitos riscos.

Apesar de ainda não ser possível comprar este medicamento no Brasil, pode-se conseguir a autorização da Anvisa para o seu uso. Dessa forma, o medicamento que antes era proibido no Brasil por falta de aprovação da Anvisa, o Canabidiol passa a ser enquadrado como medicamento de uso controlado.

Sobre indicação do médico, a maconha medicinal pode ser usada no alivio da dor forte e crônica, e no tratamento de diversos problemas e doenças como Alzheimer, epilepsia, dor, glaucoma, síndrome de Tourette, esclerose múltipla, espasticidade, náuseas e vômitos causados pela quimioterapia, anorexia e fraqueza e cansaço extremo em pacientes com AIDS.

Os dados atuais não afastam e nem dão suporte para a hipótese de que o uso medicinal da maconha poderia aumentar o uso ilícito dessa droga. Ao final do estudo os autores concluíram que o futuro do uso terapêutico da maconha está associado com o desenvolvimento de substâncias puras, e não com o fumo da mesma.

Paralelo à isso, uma batalha urge entre o preconceito e as pessoas que dependem do potencial terapeutico da planta reconhecida por muitos como sendo sagrada.

Um vídeo circula nas redes sociais e coloca ainda mais fogo na polêmica sobre o uso desta planta para diversos fins. Confira o vídeo abaixo.

 

Qual é a sua opinião sobre esse vegetal proibido no Brasil?


Fonte:
Arch Gen Psychiatry 2000;57:547-552 – Vol.57 No. 6, june 2000.

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