Clonagem de espécies frutíferas nativas: Mercado e perspectivas

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O avanço no conhecimento, incluindo a caracterização nutricional, as ações de conservação e a promoção do uso sustentável, certamente contribui para minimizar a fragilidade existente no sistema alimentar do país, bem como para o treinamento e capacitação de pesquisadores e também de estudantes.

A proposta da palestra ministrada pelo engenheiro florestal e mestrando em agronomia, Tarcisio Kurt Fehlauer, durante a VII Jornada da Biologia na UFMS, foi provocar a curiosidade, entusiasmo e alavancar o interesse por parte do público em envolver-se com a flora nativa, em especial as espécies frutíferas do cerrado. A palestra divulgou a pesquisa “PROPAGAÇÃO DE ESPÉCIES FRUTÍFERAS NATIVAS DO CERRADO POR CLONAGEM” coordenada pela pesquisadora Dra. Adriana de Castro Correia da Silva e que tem apoio financeiro da Fundação de Apoio ao Desenvolvimento do Ensino, Ciência e Tecnologia do Estado de Mato Grosso do Sul – FUNDECT. 

Seguem abaixo algumas imagens e o resumo da palestra com o contato do palestrante e a página do evento.

1. INTRODUÇÃO

Para iniciar a discussão, é necessário dar uma refrescada na memória de vocês sobre a propagação das Angiospermas. Sabe por quê? O método de propagação é um dos principais fatores na formação de pomares produtivos, pois permite garantir a uniformidade no plantio (facilitando tratos culturais), produtividade (antecipação da produção e frutos de qualidade), qualidade e quantidade de mudas.

A propagação sexuada consiste no processo de reprodução dos vegetais através da fertilização do óvulo pelo grão de pólen. O método seminal (através de sementes) de propagação é considerado inviável muitas vezes por acarretar em alta variabilidade genética, por algumas espécies demorarem a iniciar produção, há sementes recalcitrantes(que não toleram a dessecação), necessidade de superar dormência, depende de polinização entre outros fatores.

A propagação assexuada, ou clonal, enfoque da palestra, trata-se de reprodução agâmica de vegetais, reproduzindo descendentes com material genético fielmente idêntico à planta que lhe deu origem. Através desta propagação é possível reproduzir lotes homogêneos de plantas, podendo inclusive antecipar a produção de frutos e sementes, garantir uniformidade ao pomar(facilitando tratos culturais e a colheita).

Dentre as principais técnicas de propagação clonal destacam-se:

  • Estaquia: consiste na utilização de segmentos da planta matriz, seja da parte aérea ou da parte radicular, para formar um vegetal completo;
  • Alporquia: baseia-se na utilização de estímulos à formação de raízes com uso de substrato sobre incisões nos ramos, quando emitidas as novas raízes faz-se o desmame;
  • Mergulhia: é a imersão de ramo ferido no solo estimulando a formação de raízes e quando enraizado faz-se o desmame;
  • Mergulhia: é um processo identico a alporquia, porém submergindo o ramo no solo.
  • Enxertia: junção de duas plantas distintas para formar uma outra planta, útil para aproveitar sistemas radiculares mais eficientes ou parte aérea com característica de interesse. O uso em cítricos tornou popularmente conhecida esta técnica;
  • Cultura de tecidos: cada vez mais popular por caracterizar-se como de elevado rendimento (produtividade e lucratividade). Baseia-se na retirada de tecidos de plantas e estímulo à diferenciação celular com soluções nutritivas, fitoreguladores e precursores hormonais. Possível graças a totipotência das células dos vegetais, ou seja, a capacidade das celulas armazenarem em seu núcleo toda a informação genética necessária para constituir um vegetal completo.

Diante disto podemos dizer de forma simplificada que tanto a propagação clonal como a seminal são importantes e necessárias. Não há produção sem conservação e nem conservação sem produção. Atualmente a decisão por qual método de propagação adotar é essencial para garantir bons resultados no que se almeja.

Considere que a propagação seminal resulta em maior variabilidade genética, desejável para muitos casos de recuperação de áreas degradadas, e para algumas espécies ainda é a única forma conhecida de propagação. Além disso, espécies que dependem da polinização cruzada (alógamas) necessitam da variabilidade genética para garantir a produção ideal.

A clonagem é desejável para pomares comerciais e tende a ser menos custoso e mais vantajoso para o produtor, pois resulta em pomares geralmente mais produtivos, sadios, homogêneos e etc. Embora apresente estas vantagens é importante ressaltar que em pomares clonais os cuidados com contaminação por patógenos ou ataque de pragas são indispensáveis, considerando a baixa variabilidade genética e os riscos envolvidos em sistemas de reduzida variabilidade genética.

2. MERCADO

A fruticultura é o ramo da ciência agrária que trata da produção de frutos secos e frescos para atender a demanda por alimentos naturais, uma importante atividade que alavanca a economia e que estimula a produção agrícola para fins alimentícios.
Os dez maiores produtores correspondem a 62% de toda a produção mundial de frutas, o Brasil em terceiro lugar possui área de produção de 3 milhões hectares e produção total de 42 milhões de toneladas, contribuindo em 5,7% da produção mundial de frutas. Embora ocupe uma posição de respeito no ranking de produção de frutos, podemos afirmar que o brasil ainda não desenvolveu todo o seu potencial.

Os principais produtos frutícolas comerciais do brasil são banana, laranja(ambos competindo com a produção de índia e china) e nativos, a qual temos a reserva de mercado. Destaca-se entre os nativos o abacaxi, cajú, castanha-de-cajú e castanha do brasil. O Brasil tem potencial para produção de fruto nativos, uma vez que o mercado internacional tem aceitado esse tipo de produto que possui valor agregado e que contribui no contexto socioeconômico.

A fruticultura de nativos é uma atividade que tende a crescer, principalmente ao considerar os avanços no sentido de políticas públicas e incentivos ao consumo, produção e comercialização destes produtos alimentares da flora nativa brasileira. A produção de nativos permite acesso a um mercado mais reservado e com maiores possibilidades de comercialização com preço justo que compense ao produtor e ao consumidor. A Lei nº 11.947/ 2009, prevê, por exemplo, que do total dos recursos financeiros repassados pelo governo federal aos municípios, pelo menos 30% devem ser utilizados na aquisição de gêneros alimentícios diretamente da agricultura familiar, do empreendedor familiar rural ou de suas organizações, priorizando os assentamentos da reforma agrária, as comunidades tradicionais indígenas e quilombolas. Ao mesmo tempo, a compra institucional do PAA paga 30% a mais para produtos orgânicos ou agroecológicos em relação ao preço dos produtos convencionais. Desde 2008, foram estabelecidos também, por meio da PGPM-Bio, preços mínimos para produtos nativos extrativistas. Apesar desse cenário, a proporção de compras de produtos alimentícios baseados na biodiversidade nativa, seja no âmbito do PNAE, PAA, ou do PGPM-Bio são ainda muito baixos em comparação aos orçamentos dessas três iniciativas, o que demonstra a existência de um grande potencial de crescimento e uma ótima oportunidade para o aumento do uso dessas espécies.

A fruticultura garante 34% do total da mão de obra rural, fornecendo em 3 milhões de hectares cerca de 6 milhões de empregos diretos. Comparando a renda bruta e a produção frutícola com as diversas atividades agropecuárias desenvolvidas no cerrado brasileiro, nota-se que a fruticultura se destaca pela elevada produção e renda por unidade de área, tornando-se uma atividade rentável e também de interesse no contexto da agricultura de subsistência. Embora o brasil seja um país de clima tropical e com flora exuberante, considera-se que o brasileiro consome poucas frutas, abaixo do recomendado pela OMS. Ainda sim o comercio está aquecido, principalmente pela demanda externa por produtos hortícolas brasileiros e o recente e crescente mercado gourmet de valorização dos frutos nativos do brasil. Com o avanço da tecnologia e o seu uso na produção e comercialização dos produtos agrícolas, a produtividade tem sido crescente mesmo com a redução da área colhida, resultando em valores crescentes de produção. Saliento que o preço para exportação também está crescente, em 12 anos chegou a dobrar, saltando de R$82 centavos para mais de R$1,60.

3. FRUTOS NATIVOS

Mas e quando você pergunta pro brasileiro, o cidadão do cerrado, qual é a fruta nativa que você costuma consumir diariamente ou semanalmente? Bom, na maioria das vezes, quando se tem o mínimo de conhecimento sobre o que é nativo e o que é exótico, a resposta é… Açaí! O ouro roxo, fornece o delicioso palmito e também o fruto(polpa e castanha). Mas o açaí é nativo do cerrado?
Então reformulo a pergunta: Qual é o fruto nativo do cerrado brasileiro que é mais comumente consumido pela população?

  • Maracujá (Passiflora spp.): O maracujá é um fruto nativo que é realizado, principalmente, por propagação sexuada resultando em variabilidade na produção, dificultando tratos culturais e demorando a iniciar a produção. Mas como a espécie é alógama e não realiza autofecundação, ainda é a unica forma possível de se reproduzi-la quando a polinização é feita de forma natural. Há estudos de clonagem, em especial sobre enxertia em maracujá, que renderam bons resultados na tolerância a pragas e doenças, um avanço para evitar perda de cultivares interessantes e de solucionar problemas comuns nos pomares como a expansão das áreas de cultivos para regiões anteriormente consideradas inaptas.
  • Abacaxi (Ananas comosus): Este é um belo exemplo de fruto nativo e originário da região. Nota-se que o resultado da propagação vegetativa é um pomar homogêneo e isso facilita os tratos culturais, se bem que quando trata-se de abacaxi, os tratos culturais não costumam ser fáceis. Mesmo com as dificuldades, o cultivo do abacaxi proporciona uma renda considerável tanto pelos frutos, como pelas mudas que também são comercializadas. Além destes mercados potenciais ao abacaxi, a demanda por produtos ecológicos tem tornado o couro ecológico, feito a partir de fibras das folhas do abacaxizeiro, uma alterativa promissora a industria têxtil e à destinação deste subproduto da produção frutícola.
  • Baru (Dipteryx Alata): com alta capacidade de aproveitamento, o cumaru, fruto nativo do cerrado, pode ser utilizado tanto para consumo humano, principalmente através da castanha, como para alimentação animal por meio da polpa, dotada de alto valor protéico e energético. Embora de fácil coleta e indicada na arborização de pastagens, a rentabilidade dos cultivos de baru é, ainda, uma incógnita a ser respondida, considerando a necessidade de se estudar a propagação clonal visando antecipar a colheita.

Dados dos Ceasas indicam o valor agregado dos frutos nativos, destaque para a castanha de baru que pode chegar a valores até R$200 por quilograma. Outras castanhas como a de cajú também tem um mercado firme, tanto para o abastecimento interno, como para exportação.
O jenipapo anteriormente só explorado para iscas, hoje é demandado nos grandes centros urbanos e os valores podem exceder R$22 por quilograma. O abacaxi também é uma cultura de sucesso, tanto pela facilidade no cultivo como na ampla comercialização dos seus produtos e subprodutos. Nos Ceasas de São Paulo o abacaxi a unidade de abacaxi chega a exceder o valor de R$4,50.

4. PERSPECTIVAS

Para o estímulo na produção de frutos nativos, as perspectivas são as melhores. O planeta está pequeno, passamos a marca dos 7,7 bi pessoas no mundo e ainda temos, cada vez mais, pessoas passando fome (morrendo ou desnutridas), a saúde das pessoas está em risco, precisamos de segurança alimentar, garantir a soberania alimentar dos povos. Sustentabilidade é isso, incluir a necessidade das pessoas no planejamento dos centros urbanos (hortas comunitárias, fazendas urbanas). O consumo consciente, considerando as condições regionais de oferta ambiental e as possibilidades de interiorizar a produção, são peças chaves para que a sustentabilidade entre no hábito alimentar brasileiro.

  • Baru (Dipteryx alata): Castanha rica em omega 3,6,9 utilizada na medicina popular para combater o cancer, diabetes e hipertensão. Alternativa para arborização de pastagens e é uma fonte de alimento para o gado durante a estação seca.
  • Bocaiuva (Acrocomia spp.): Polpa rica em ômega 3, 6 e 9, proteínas, vitaminas, antioxidantes, fibras e minerais. Popularmente usado na prevenção de doenças cardiovasculares e na melhora do funcionamento do sistema imunológico. Além da polpa do fruto, a amêndoa também pode ser consumida crua e é muito apreciada.
  • Pequi (Caryocar spp.): Alimento muito rico em vitamina A; B1 (tiamina); Carotenoides; B2 riboflavina (equivalente ao ovo, supera abacate, banana e mamão); Fósforo (comparável a carne de boi, carneiro, coelho e galinha); Lipídios (equivale ao açaí, abacate e buriti); Ferro (equivalente ao tomate); Cobre (equivalente ao amendoim, uva e trigo). A fruta descascada é vendida in natura a R$ 6kg em mercados regionais e o litro do óleo custa R$ 50,00 em feiras populares. Em um website europeu, um vidro de 40 ml chega a valer 19 euros.
  • Guavira (Campomanesia pubescens): A fruta símbolo de Mato Grosso do Sul é rica em antioxidantes, vitamina C, beta-caroteno, fibras e minerais como cálcio, ferro e zinco. Na medicina popular é apontado como o alimento ideal para ajudar a controlar o sistema cardiovascular.
  • Jatobá-do-Cerrado (Hymenea stignocarpa): Polpa rica em minerais, como Potássio(mais que a banana), Cálcio (mais que o leite), Magnésio, Ferro e Fósforo, e também em Vitamina C. Na medicina popular é usado como eliminador natural de infecções, pois possui princípios ativos antifúngicos e antibacterianos que trata e previne infecções sistêmicas e além disso é antinflamatório e diurético emagrecedor.

Enfim, tem muita gente por aí escolhendo mau os alimentos, dando prioridade ao que faz mal a saúde e desperdiçando de forma lamentável esses banquetes que a natureza oferece. Fica a dica, você que vive no cerrado e deixa que os frutos nativos passem despercebidas no dia-a-dia, passe a valorizar o alimento, aja como disseminador de bons hábitos. Até a anta, que é uma anta, saboreia e dissemina espécie nativas do cerrado.

Além do uso alimentar, a flora nativa oferece outras inúmeras utilidades, quem não se alegra em ver um bonsai carregado de frutos, ou até utilizar produtos de beleza e cosméticos para incorporar a natureza nos cabelos, na pele, enfim. Para beleza, não há o que se discutir, plantas tropicais nativas são fonte de vida. E não para por aí, o uso dos frutos nativos para preparar receitas, criar produtos alimentares, de cosmético ou até farmacos fitoterapicos, resulta em uma agregação de valor sem precedentes. Sorvetes, picolés, geléias, licores e outros alimentos processados são boas alternativas para prolongar a validade dos produtos, conferindo maiores possibilidades de vendas o longo do tempo, permite também agregar valor e sabor aos frutos que não são tão atrativos in natura, como é o caso do jenipapo. Já pensou comercializar um bolo/brigadeiro azul feito com jenipapo verde? O jenipapo é um fruto nativo que geralmente se dispensa o uso ou é subutilizado como isca para peixes.

5. ENTRAVES

É evidente que as pesquisas com frutíferas nativas ainda são escassas, um nicho de pesquisa promissor e imprescindível. Há necessidade de investigar a fitossanidade de plantas junto aos aspectos de controle com o manejo integrado de pragas e doenças, recursos genéticos resistentes, tolerantes e interessantes ao uso nos pomares (pimenta, alecrim e tremoço, por exemplo) e técnicas que permitam o controle da produção e a lucratividade com frutos nativos.

O movimento (ONG internacional) slowfood chama a atenção da sociedade para espécies e receitas que correm risco de extinção a fim de resgatar usos culinários e abrir perspectivas de novos mercados com alimentos exóticos ao paladar e que podem ser compostos por espécies nativas da flora brasileira. O Slowfood visa permitir a troca de conhecimentos com intuito de perpetuar tradições alimentares e expandir o uso de espécies de elevado interesse ecológico, econômico e social. As espécies nativas do cerrado que aparecem na Arca do Sabor do movimento slowfood são o pequi, jatobá, murici, guavira.

6. POSSIBILIDADES

A agregação de valor é possível quando realiza-se o processamento do fruto, descascando, torrando, moendo, transformando em pães, geléias, doces. A castanha de baru por exemplo, comercializada inicialmente por R$40 o quilograma da castanha crua, R$60 quando descascada, atinge valores de R$90 à R$200 quando torradas e valores ainda maiores quando transformadas, por exemplo R$2 a paçoca de baru.

7. CERRADO

O cerrado é o segundo maior bioma do brasil e é considerado a savana mais biodiversa do mundo. Faz fronteira com todos os demais biomas e tem considerável produção de frutos comestíveis os quais fornecem alimentos a fauna silvestre. A fruticultura de nativos garante além da socioeconomia também um impacto ambiental positivo. No Brasil, o Cerrado cobre aproximadamente 2 milhões de km², o que representa 23% do território nacional.

Produzir ou estimular a produção de frutos nativos do cerrado brasileiro é um passo em direção a sustentabilidade, pois contribui no contexto socioeconômico e ambiental. Devemos valorizar as iniciativas e nos envolver cada vez mais na cadeia de produção e consumo destes tesouros naturais.

8. CONSIDERAÇÕES FINAIS

A fruticultura de espécies nativas é uma atividade que deve ser estimulada para permitir a sustentabilidade na produção de frutos e garantir o abastecimento dos produtos demandados pela população. Muitas espécies frutíferas do cerrado possuem elevado interesse comercial mas possuem características fisiológicas que dificultam a sua reprodução. A propagação clonal resulta em baixa variabilidade genética, facilitando os tratos culturais, além de permitir um melhor controle da produção, antecipando-a e elevando seu rendimento.

 

Palestrante: Tarcisio Kurt Fehlauer (e-mail: tarcisio_kf@hotmail.com)
Evento: Jornada da Biologia

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