É a notícia mais assustadora do século, a Bayer “compra” a Monsanto. O fato dá origem ao que é, de longe, a maior corporação de agronegócio do mundo. Segundo os resultados financeiros de 2015, as duas empresas têm um volume de negócios combinado de US$ 23,1 bilhões. Os jovens casais Syngenta / ChemChina e Dupont / Dow as seguem de longe (US$ 14,8 e 14,6 bilhões, respectivamente), e a Basf está relegada ao quarto lugar, com US$ 5,8 bilhões.

A Bayer e a Monsanto controlam, juntas, cerca de 25% do mercado mundial de pesticidas; e de 30% das vendas de sementes agrícolas — tanto as geneticamente modificadas quanto as convencionais. Considerando-se somente as plantas transgênicas (OGM), as duas corporações juntas atingem uma clara posição de monopólio, com mais de 90%.


A Bayer, cuja antecesseora, a IG Farben, fabricava o Zyklon-B, o gás usado pelos nazistas nas câmaras que matavam judeus na Segunda Guerra, comprou a Monsanto, que produzia o Agente Laranja, químico usado na guerra do Vietnã, e que atualmente vende o pesticida mais usado (e criticado) da história do mundo, o glifosato (comercializado com o nome de Round-Up).

Após meses de negociações, o grupo farmacêutico e químico alemão Bayer acertou em setembro a compra da empresa agroquímica americana Monsanto por 66 bilhões de dólares. Se autorizado pelas autoridades antitruste, o negócio criará a maior fabricante de herbicidas e sementes do mundo. O bilionário mercado dos alimentos, agrotóxicos e medicamentos está prestes a ser dominado pela maior empresa do mundo.

Segundo o jornal The Wall Street Journal, juntas, a Bayer e a Monsanto controlariam 28% das vendas de herbicidas. Juntos, Bayer e Monsanto se converterão em um gigante mundial de 23 bilhões de euros (25,8 bilhões de dólares) de volume de negócios anual, com cerca de 140.000 funcionários.

As negociações entre a Bayer e a Monsanto começaram em março deste ano. A primeira oferta do grupo alemão, de 122 dólares por ação, foi apresentada em maio. As distintas ofertas feitas pela Bayer desde maio, cada vez mais elevadas, haviam sido até então rejeitadas pelo grupo americano, que se mostrava aberto a negociar, mas sempre deixando claro que havia outras propostas sobre a mesa. Só que esses misteriosos interessados jamais se revelaram. O acordo foi fechado depois de a Bayer aumentar sua oferta pela terceira vez. O grupo alemão pagará 128 dólares por ação, um pouco mais do que a proposta anterior, de 127,50 dólares por ação.

Presidente da Bayer, Werner Baumann, e da Monsanto, Hugh Grant, comemoram o acordo

Profissionais da Alta Gastronomia fizeram manifesto na França, dentre eles o Mauro Colagreco, melhor chef da frança segundo o guia britânico “Best Restaurant”, e cozinheiros com três estrelas no guia Michelin, como Michel Bras e Yannick Allen, que criticaram união das empresas e apelaram:

“Ardentes defensores do comer bem, comprometidos cotidianamente na valorização dos bons produtos e dos pequenos produtores, essa fusão agroquímica não constitui apenas um perigo para nossos pratos, mas também uma fonte de inquietude para os agricultores que veem limitada a sua liberdade de plantar e de cultivar essa ou aquela semente. As megaempresas pretendem aumentar suas atividades e seus lucros, em todos os continentes, desrespeitando a biodiversidade e a saúde das populações”

-Chefs de cozinha renomados mundialmente. França 20/09/2016.

“Com a aquisição da Monsanto pela Bayer, a concentração no mercado do agronegócio atinge um novo pico. Os elementos chave da cadeia alimentar estão agora nas mãos de um só grupo. Os agricultores devem preparar-se para pagar preços mais altos e também terão menos escolhas. Além disso, deve piorar ainda mais o bloqueio à inovação no setor, especialmente para os herbicidas”

-criticou Toni Michelmann, da Coalizão contra os males da Bayer (CBG).

“A cínica partida de pôquer em torno da Monsanto, animada por pura cupidez, mostra mais uma vez que a alimentação do mundo é uma questão séria demais para ser deixada nas mãos dos gigantes do agronegócio. O que a Coalizão contra os males da Bayer recomenda, portanto, é colocar as corporações sob controle social.”

-Axel Köhler-Schnura, também da CBG.

A organização de defesa dos consumidores SumOfUs  também assumiu posição contra a compra da Monsanto:

“Esta aquisição é uma ameaça ao nosso abastecimento de alimentos e a todos os agricultores do mundo. Não surpreende, portanto, que mais de 500 mil de nossos membros tenham assinado uma petição contra essa compra.”

-declarou Anne Isakowitsch.

A HISTÓRIA DAS EMPRESAS

Só em 1995 a Bayer pediu desculpas publicamente por ter fabricado o gás para os fornos de Adolf Hitler e por ter utilizado judeus como escravos e cobaias humanas nas fábricas construídas ao lado dos campos de concentração durante a Segunda Guerra. O executivo alemão Fritz ter Meer, que dirigiu as operações em Auschwitz, chegou a ser condenado à prisão no tribunal de Nuremberg, mas retornou como presidente da Bayer AG em 1956.

A Monsanto, em parceria com a Dow Chemical, forneceu os 80 milhões de litros de Agente Laranja despejados sobre o Vietnã para destruir as plantações de arroz do inimigo e desfolhar a vegetação, entre 1965 e 1971. O pesticida é acusado de ter provocado câncer em milhares de vietnamitas e malformações em 150 mil crianças, mas as duas empresas já ganharam ou recorreram de várias sentenças judiciais condenando-as a pagar indenizações às vítimas. A Dow e a Monsanto só concordaram em pagar indenização aos soldados norte-americanos, em um acordo feito em 1984.

Em seu site oficial, a Monsanto nega sua responsabilidade nos efeitos do Agente Laranja sobre os vietnamitas, sul-coreanos ou quaisquer populações atingidas. Na época da guerra do Vietnã, o governo dos EUA e os produtores do pesticida também diziam que o Agente Laranja era inofensivo aos seres humanos, exatamente como fazem hoje com o glifosato, a despeito de uma agência da OMS (Organização Mundial de Saúde) ter comprovado seu potencial cancerígeno.

 

BAYER (2º Trimestre de 2016)
  • Lucro líquido: US$1,5 bilhões
  • Sede: Leverkusen, Alemanha
  • Nº de funcionários: 115,5mil
MONSANTO (2º trimestre de 2016)
  • Lucro líquido: US$ 1 bilhão
  • Sede: St. Louis, Estados Unidos
  • Nº de funcionários: 22mil

 

MATRIMÔNIO DOS INFERNOS

O ativista Mike Adams descreveu a compra da Monsanto pela Bayer com um título espalhafatoso porém verdadeiro: “Bayer, companhia química fundada por nazistas, compra a inspirada-por-satã Monsanto por 66 bilhões de dólares, uma perfeita dupla no inferno dos químicos.” O pré-candidato à presidência dos EUA e senador Bernie Sanders soltou uma nota qualificando a venda da Monsanto à Bayer como “uma ameaça a todos os americanos”. O que diz o povo brasileiro, campeão mundial em consumo de agrotóxicos?

Os especialistas em negócios dizem que a Bayer talvez seja capaz de dar um gás (ops) à combalida Monsanto, cujas vendas de glifosato vêm caindo nos últimos anos. A expectativa é que agora, aliada à Bayer, a Monsanto produza uma nova série de sementes modificadas geneticamente e pesticidas ainda mais potentes. Lembrando que a Bayer é, atualmente, a empresa que mais oferece risco às abelhas, principais polinizadores naturais.

“Se as abelhas desaparecerem da Terra, a humanidade terá apenas mais quatro anos de existência. Sem abelhas não há polinização, sem polinização não há reprodução da flora, sem flora não há animais, sem animais não haverá raça humana”

-Albert Einsten, (1879/1955)

Segundo a AFP, a união das duas empresas está sendo classificada como “matrimônio dos infernos” por ambientalistas e causou fortes críticas na Alemanha, um país cuja sociedade se opõe majoritariamente aos transgênicos. A Monsanto é a líder mundial em herbicidas e sementes transgênicas e a fabricante do controverso herbicida glifosato, criticado por ambientalistas, médicos e cientistas e contra o qual há cada vez mais evidências de causar câncer.

Existe até um Dia Mundial contra a Monsanto, algo sem precedentes na relação entre empresas e a sociedade. Em 2015, ele aconteceu em 23 de abril e mobilizou pessoas nos 5 continentes, em 48 países e 421 cidades. Este ano os protestos globais acontecerão em 16 de outubro –há um site global que orienta a mobilização e dissemina conteúdos de denúncia contra a Monsanto (saiba mais). Além disso, a empresa é alvo de campanhas seguidas movidas por agricultores e ambientalistas. No Brasil, o MST lidera os protestos contra a Monsanto e a Bayer.

Logo após ser “engolida” pela Bayer, a Monsanto adquiriu um licenciamento mundial não-exclusivo do Broad Institute, do MIT, e de Harvard envolvendo o sistema de edição genética CRISPR/Cas9. A empresa vai usá-lo para projetar e desenvolver novas sementes e plantas, mas há restrições importantes para evitar que a Monsanto abuse desta tecnologia revolucionária.

A CRISPR é rápida e poderosa, e vai aumentar a capacidade da Monsanto em criar sementes e culturas com resistência à seca e a doenças, com teores mais saudáveis de gordura, e com mais sabor. Esta pode não ser a primeira ferramenta de edição genética usada pela empresa, mas é a mais potente. Os termos financeiros do acordo não foram divulgados, mas pode apostar que isso não saiu barato.

O acordo estipula que a Monsanto não pode usar a CRISPR para criar as chamadas sementes “Terminator” ou GURT (Tecnologia de Restrição no Uso do Gene). Esta é a prática de criar sementes estéreis, e muitos temem que a Monsanto, que detém a patente para essa tecnologia, um dia vai optar por usá-la. Ao criar culturas que não podem autorreplicar naturalmente, os agricultores ficariam dependentes destas sementes, fazendo empresas como a Monsanto obter enormes lucros. O acordo da CRISPR proíbe isso expressamente.

 

AUTORIDADES ANTITRUSTE

Antes da fusão se consolidar, especialistas antitruste afirmaram que reguladores do mercado nos EUA provavelmente exigirão a venda de algumas licenças de soja, algodão e canola como uma condição para aprovar o acordo. O fato de a empresa ser forte nos EUA, e a Bayer, na Europa e na Ásia, pode servir como um bom argumento para a aprovação da fusão. No ano passado, a Monsanto tentou adquirir a concorrente suíça Syngenta, que ao final ficou nas mãos de empresários chineses.

Segundo o comunicado da Bayer, a sede da nova gigante no setor de sementes deverá ficar em St. Louis, no estado americano de Missouri.

Abaixo apresentamos uma filmagem do MANIFESTO EM BUENOS AIRES, nossos hermanos estão revoltados com o desrespeito aos direitos humanos e ao meio ambiente, a Bayer e Monsanto são ameaças à biodiversidade e a soberania alimentar, principalmente pela expressividade na popularização dos Organismos Geneticamente Modificados (OGM), dos agrotóxicos (pesticidas e herbicidas) e também na dominação das sementes (veja sementes da liberdade).

 

A gigante Bayer engole a Monsanto e assume o reinado dos transgênicos e venenos do mundo, mas paralelamente a isso, apresenta a postura de fabricante de alimento e da cura (com drogas de farmácias) dos males que ela mesmo propaga.
Enquanto isso, cada um de nós, brasileiros, consumimos em média 5,2L de agrotóxicos ao ano.

Fiquem atentos, o veneno está na mesa!

 

 

Fonte:  AFP e Deutsche Welle
Uol
CartaCapital
O cafezinho
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Bacharel em Engenharia Florestal e mestrando em Agronomia - Produção Vegetal pela Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul, campus de Aquidauana (UEMS/UUAq). Entusiasmado pelo amor à natureza, o floresteiro costuma atuar em diversas atividades que envolvem o meio ambiente e os recursos naturais, além de participar como colaborador intelectual do AquidauanaMais. Acredita que a interferência de uma "formiga na selva de pedras", embora pequena, pode ser positiva ao ponto de contribuir no caminhar ao desenvolvimento sustentável. Se é esse o caminho, é por ele que vamos.